Ciência · Eletroestimulação
Corrente russa, aussie, TENS e FES: o que a evidência diz sobre cada corrente
A fisiologia da contração induzida não é a mesma da contração voluntária, e boa parte do que se repete sobre correntes em kHz não sobrevive aos estudos. Um guia honesto de parâmetros.
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- Equipe Bioset
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Pontos-chave
- Por que a contração elétrica recruta fibras de um jeito diferente da voluntária
- Os parâmetros reais de russa, aussie, TENS e FES, lado a lado
- O que os estudos comparativos mostram (e o mito que eles derrubam)
- Onde entra a contração supramáxima por campo eletromagnético
O que a eletroestimulação faz com o músculo?
A corrente elétrica não contrai a fibra muscular diretamente: ela despolariza os axônios motores que passam sob os eletrodos, e são eles que disparam a contração. Isso gera um recrutamento não seletivo, espacialmente fixo e sincronizado, bem diferente da contração voluntária, que ativa unidades motoras pequenas primeiro e reveza fibras para adiar a fadiga.
Essa diferença explica as duas marcas registradas da eletroestimulação neuromuscular: ela consegue ativar fibras rápidas mesmo em intensidades baixas, e fadiga o músculo mais cedo do que o exercício voluntário equivalente. Nenhuma das duas é defeito; são características para dosar no protocolo.
Aqui vale desmontar um mito de apostila: a ideia de "recrutamento invertido", com fibras rápidas sempre primeiro, é uma simplificação. A leitura atual da literatura, consolidada por Bickel2, Gregory e Dean, é de recrutamento aleatório, ditado pela posição dos ramos axonais no campo elétrico, não pelo limiar da fibra.
2Bickel CS et al., 2011.Motor unit recruitment during neuromuscular electrical stimulation: a critical appraisal.
Quais são os parâmetros de cada corrente?
Cada família de corrente é uma combinação de frequência portadora, formato de burst e modulação. A tabela abaixo resume os valores clássicos usados em estética e reabilitação.

Tabela 1 Parâmetros típicos das correntes excitomotoras
| Corrente | Portadora | Burst | Modulação | Uso típico |
|---|---|---|---|---|
| Russa (Kots) | 2,5 kHz | 10 ms, ciclo 50% | 50 Hz | Fortalecimento, protocolo clássico 10 s ON / 50 s OFF |
| Aussie | 1 kHz | 4 ms | 50 Hz | Fortalecimento com mais conforto por ciclo |
| FES / pulsada de baixa frequência | Pulsos de 200 a 500 µs | Não se aplica | 30 a 80 Hz | Reabilitação funcional e fortalecimento |
| TENS | Pulsos curtos | Não se aplica | Variável | Analgesia (não é corrente de fortalecimento) |
Deslize a tabela para ver as 5 colunas.
Fontes: ver as referências ao fim do artigo.
A corrente em kHz é mesmo superior?
A evidência diz que não. O trabalho de referência de Alex Ward, publicado no Physical Therapy, mostrou que a impedância da pele depende da duração de fase do estímulo, não da frequência portadora em si, e que o torque máximo foi obtido com portadora de 1 kHz, não de 2,5 kHz. Os parâmetros da russa tradicional são, nas palavras da própria literatura, subótimos.
Comparações diretas reforçam o quadro. Dantas e colaboradores4 mediram torques altos e similares com corrente aussie e corrente pulsada, com a russa produzindo menos. Uma scoping review de 2018 concluiu que correntes alternadas em kHz geram força igual ou menor, desconforto parecido e mais fadiga que a pulsada de baixa frequência.
4Dantas LO et al., 2015.Comparison between the effects of 4 different electrical stimulation current waveforms.
A mensagem prática não é "abandone a russa": é que a variável que mais importa não é a sigla da corrente, e sim a intensidade. Os ganhos de força e massa aparecem quando a contração induzida chega perto do máximo tolerado e progride sessão a sessão. Corrente confortável demais, parada no nível sensorial, não remodela músculo.

Eletroestimulação reduz gordura localizada?
Não é o que a evidência mostra. No estudo de Porcari6, 8 semanas de estimulação seguindo as instruções do fabricante não mudaram força, composição corporal nem aparência física em programas passivos de baixa intensidade. Em estimulação abdominal diária, a força abdominal aumentou sem qualquer mudança de circunferência ou de gordura.
6Porcari JP et al., 2002.Effects of electrical muscle stimulation on body composition, muscle strength, and physical appearance.
Eletroestimulação é ferramenta de músculo e de analgesia, não de lipólise. Para dor, aliás, o racional é outro: o TENS trabalha com liberação de endorfinas e interrupção da sinalização dolorosa, função central do BIOSTIM TENS E FES da Bioset. Já os aparelhos multicorrentes reúnem TENS, FES, interferencial e russa numa única plataforma, cobrindo do controle de dor ao fortalecimento com os parâmetros da tabela acima.
Aparelho neste parágrafo
E a contração supramáxima por campo eletromagnético?
Existe uma terceira via, que não passa corrente pela pele: a eletroestimulação por indução magnética (HIFEM). Um campo eletromagnético de alta intensidade induz despolarização em profundidade e produz contrações supramáximas, acima do que o paciente atingiria voluntariamente, mimetizando potenciais de ação do sistema nervoso central.
No portfólio Bioset, essa tecnologia é o Kratos Force, plataforma de campo eletromagnético voltada a tonificação e fortalecimento. Por dispensar eletrodos e atingir intensidades de contração inalcançáveis por corrente transcutânea confortável, ocupa um espaço próprio nos protocolos de modelagem corporal, complementar às correntes clássicas, não substituto delas.
Aparelho neste parágrafo

O que a evidência sustenta
Leitura da equipe Bioset sobre as 7 referências deste artigo
Consenso
- NMES fortalece e hipertrofia quando aplicada em intensidade alta e progressiva
- O recrutamento induzido é não seletivo e sincronizado, com fadiga precoce
- Correntes em kHz moduladas em burst são opção de conforto, não de superioridade
Promissor, mas incerto
- Superioridade da aussie sobre a russa (amostras pequenas, resultados mistos)
- Combinações de burst e portadora ideais por objetivo
- Sinergia de eletroestimulação com radiofrequência no contorno corporal
O que não afirmar ao paciente
- Que eletroestimulação queima gordura localizada ou substitui exercício
- Que a russa "recruta primeiro as fibras rápidas" como fato estabelecido
- Que 2,5 kHz penetra mais por ser uma frequência maior
Perguntas frequentes
- Qual corrente escolher para fortalecimento?
- Qualquer corrente excitomotora bem dosada funciona; a evidência aponta leve vantagem de conforto para bursts curtos (aussie) e resultado dependente sobretudo da intensidade atingida e da progressão semanal.
- TENS serve para tonificar?
- Não. TENS é corrente de analgesia, com parâmetros sensoriais. Para resposta motora, use FES, russa ou aussie em intensidade motora franca.
- Quantas sessões por semana?
- Os protocolos de fortalecimento estudados usam 2 a 3 sessões semanais por grupo muscular, com o clássico 10 s de contração e 50 s de repouso na russa, ajustando o ciclo conforme a fadiga.
- Posso combinar correntes e campo eletromagnético no mesmo plano?
- Sim, desde que com objetivos claros por sessão (analgesia, fortalecimento, modelagem) e com registro de intensidade em cada modalidade.

Aparelho citado neste artigo
BIOSTIM TENS E FES
Eletroestimulador portátil de 4 canais, com TENS para analgesia e FES para contração muscular.
- Tecnologia
- Eletroestimulação e multicorrentes
- Registro ANVISA
- 10410309015
Kratos ForceReferências 7 fontes, de 2002 a 2018
- 1
Ward AR (2009). Electrical stimulation using kilohertz-frequency alternating current. Physical Therapy, 89(2):181-190.
Oxford Academic (abre em nova aba) - 2
Bickel CS, Gregory CM, Dean JC (2011). Motor unit recruitment during neuromuscular electrical stimulation: a critical appraisal. European Journal of Applied Physiology.
Springer (abre em nova aba) - 3
Maffiuletti NA et al. (2011). Physiological and methodological considerations for the use of NMES. European Journal of Applied Physiology.
Springer (abre em nova aba) - 4
Dantas LO et al. (2015). Comparison between the effects of 4 different electrical stimulation current waveforms. Muscle & Nerve.
Wiley Online Library (abre em nova aba) - 5
Vaz MA, Frasson VB (2018). Low-frequency pulsed current versus kilohertz-frequency alternating current: scoping review. Archives of Physical Medicine and Rehabilitation.
ScienceDirect (abre em nova aba) - 6
Porcari JP et al. (2002). Effects of electrical muscle stimulation on body composition, muscle strength, and physical appearance. Effects of electrical muscle stimulation on body composition, muscle strength, and physical appearance.
PubMed (abre em nova aba) - 7
Gondin J et al. (2011). Neuromuscular electrical stimulation training induces atypical adaptations. Journal of Applied Physiology.
journals.physiology.org (abre em nova aba)
Sobre este artigo
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- Equipe Bioset
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- Ciência e Evidência · Ciência
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- Equipe Bioset. Corrente russa, aussie, TENS e FES: o que a evidência diz sobre cada corrente. Caderno Técnico Bioset, 10 ago. 2026. Disponível em: https://www.bioset.com.br/blog/eletroestimulacao-muscular-evidencia. Acesso em: 5 out. 2026.
Conteúdo técnico para profissionais habilitados. Não substitui a avaliação individual de cada paciente, e a conduta é do profissional. Resultados variam conforme paciente e protocolo.


